Pronto, finalmente assisti ao Ensaio Sobre a Cegueira, dirigido pelo Fernando Meireles. Mesmo sabendo que provavelmente vou entrar em conflito com alguns bons amigos sobre as impressões do filme, decidi escrever a respeito. Tenho o hábito de olhar as entrelinhas do que está sendo dito e, correndo todos os riscos de falhar miseravelmente nessa análise e desapontar aqueles que incensam o filme, vou avisando que o que segue é minha visão subjetiva das intenções do filme.
Primeiro o que me parece bom, mas pouco e um tanto óbvio. Logo no princípio do filme há a intenção de denunciar a dependência do homem ao sentido da visão. Há um mérito inegável aí. A visão é o nosso sentido mais usado, há uma prevalência dele sobre os demais. Todas as cenas que mostram o homem perdido no trânsito são quase didáticas. O Homem sem visão está perdido, não consegue responder por si, é completamente dependente da boa vontade de estranhos, e, acho que nesse ponto a história pretende ser irônica, pois é um ladrão que leva a primeira vítima da epidemia de cegueira para casa. O perfil dessa vítima já começa a dar o tom do filme. Ela mora num belo apartamento; sua esposa , as vezes um tanto exaltada, veste-se muito bem, quando chegam ao consultório do médico conseguem ser atendidos antes daqueles que já estavam lá, e, entre estes, a fala de um paciente negro apela para o script do bom samaritano. Tudo parece apontar o dedo para algum extrato social privilegiado, egoísta e sem escrúpulos. Não iluminados, sem visão. Tão óbvio, tão clichê!
Percebo já estou entrando naquilo que não gostei do filme, e que se sobrepõe muito ao que gostei. Vejo várias mensagens subliminares querendo imputar ao Homem aquela cantinela de que ele é mau por natureza, que necessita de iluminação, de regulação externa. Vamos a elas. A história mostra um Homem sem visão que contamina todos aqueles com quem convive e estes por sua vez vão expandido o mal. Ninguém é poupado, o médico burgues , a prostituta de luxo, o humilde caixa negro da farmácia, o ladrão de carros, a ministra da saúde, e por fim o mundo inteiro. Logo todos são iguais, todos são reduzidos à sua cegueira, ao seu mal, todos são nivelados pelo seu lado sombrio, aquele não iluminado, pelo Homem mau por natureza.
Ah, e há também a mão forte de um estado opressor que aprisiona todos os Homens por não saber como lidar com esses seres doentes. O Homem logo passa a ser tratado como lixo humano, vítima de políticas ineficazes e à mercê dos burocratas e detentores da força. Nessas condições aflorariam ainda mais os seus instintos animais, primários, em que vale a lei do mais forte. Logo, o mais forte, o detentor do poder de fogo subjuga os valores e a dignidade de todos os demais. É absolutista, decide quem come, abusa das mulheres e solapa a dignidade do Homem. Tudo em benefício próprio e de seu séquito. O filme parece querer dizer: vejam no que as políticas de estado, as condições precárias de vida transformaram a sociedade: só degradação moral. Sinto agora um gosto de ranço velho!!
A única esperança do Homem é o lider visionário, aquele ser desapegado que resolveu correr os riscos e entrar no inferno humano quando isso lhe era absolutamente desnecessário; mais, era extremamente perigoso. Ah, mas esse líder visionário é único não afetado pelo mal humano, ele tem a visão, percebe tudo aquilo que os demais não conseguem mais ver, é único capaz de conduzir o Homem pelos tortuosos caminhos em que foi metido, por si próprio e pelo sistema. Nesse ambiente, matar outro homem, especialmente o bárbaro usurpador das mulheres e dos direitos da coletividade é plenamente justificado, afinal somente ele é o iluminado que a tudo vê, quase um deus onisciente. Ele é o único que poderá reagir para restituir a dignidade do Homem. Trata-se de um ser tão elevado que só superficialmente é afetado pelos sentimentos. Interpretado por uma mulher, quando ela descobre seu parceiro satisfazendo suas carências sexuais com a prostituta reage de forma altiva, para entender o que aconteceu acha melhor não falar a respeito. Sua única reação mais contundente é informar à prostituta que possui o dom da visão. O corolário disso parece ser que, sendo uma pessoa iluminada e, portanto, moralmente melhor aparelhada não é afetada pelos sentimentos de raiva e ciúmes e nem tem ao que perdoar. Patético!
Lá pelas tantas vê-se um mundo tranformado num caos errante por causa da cegueira do Homem, não há mais nenhuma atividade econômica, não há energia, a fome grassa pelas cidades, ninguém sabe para onde ir ou como viver. O líder visionário é o único que consegue achar alimento, levar seus pupilos a um lugar seguro. Nesse recôndito lugar confraterniza com seus pares, proporciona-lhes abrigo, alegria, vida, e quando está chamando a todos para planejar, sempre centralizadamente, os próximos movimentos dá-se o grande milagre: a primeira vítima da cegueira consegue inexplicávelmente ver novamente, alcançou a iluminação e, de quebra, traz esperança aos demais de que também eles serão curados. Um narrador então diz: "Eles veriam novamente. Desta vez iriam realmente ver. Quem seria inseguro a ponto de se prender ao cobertor da cegueira? Quem seria tolo a temer que sua intimidade fosse se perder?"
Estaria eu escrevendo tudo isso para negar que existam esses problemas que são denunciados no filme? Não, esses problemas existem de fato e são graves. Há pessoas violentas, políticas estúpidas e ineficazes, falta de empatia, falta de reconhecimento daqueles que nos cercam, injustiças e tudo o mais que idealmente não gostaríamos que existisse. Mas isso não é tudo e estou escrevendo esse texto porque não concordo com essa rasteirização do Homem, nivelando-o pelo seu lado obscuro e, especialmente, porque acho muito perigoso que se acredite num líder centralizador, onisciente, libertador das chagas humanas e salvador dos descaminhos morais. Veja a coleção de leis, estatutos, deliberações morais que crescem exponencialmente nos dias de hoje. Uma das recentes leis, que por sinal não está sendo cumprida e nem fiscalizada é a famosa tolerância zero ao consumo de álcool. Ouvi várias defesas da legislação anterior, dizendo que seria suficiente se fosse cumprida. Nunca vi o empenho das autoridades em educar o Homem para sua auto-regulação. Parece que a coerção legal ou moral é a única forma de convivência que nos resta, ninguém parece acreditar que o Homem é capaz de apreender seus semelhantes, de viver sua humanidade. Também não acho que estejamos prontos para um mundo sem regras, mas me parece claro que a sobreposição, o excesso e até a contrariedade das regras atuais não estão produzindo um mundo e Homem melhor.
Estarei vendo coisas demais nas entrelinhas do filme? Essa tal mensagem subliminar é delírio meu? Talvez sim. O que você acha? Acha que o filme é muito mais inocente do que minha interpretação? Se sua resposta for sim, é provável que concorde que o Homem é mau por natureza e precisa ser controlado, regulado e conduzido. Senão, talvez acredite, como eu, que o homem é bom por natureza e que pode ser educado desde sua infância a se auto-regular para conviver com os limites que a vida impõe e com seus próprios exageros e vontades que invadem os demais. Estão aí postos os limites de minha visão do mundo.
A propósito, não li o livro do Saramago que inspirou o filme e portanto não posso tecer comentários sobre as intenções do que ele escreveu. Também não pretendo lê-lo. Há algum tempo comecei a ler o seu "A Caverna". Não gostei de seu estilo e, respeitando a finitude da vida e a necessidade de escolhas, decidi que esse não é um dos autores ao qual pretendo dedicar meu tempo.
Em tempo, como assisti ao filme em DVD tive a oportunidade de ver nos Bônus um trailer sobre o grupo brasileiro Uakti que fez a trilha sonora. Precioso.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Despedidas
Não obstante o vazio do apartamento, sinto-o preenchido. Agora, novamente, eu estou aqui e já consigo desfrutar do conforto da solidão. Já passei por vários tipos de solidão. Não vou falar daqueles tipos miseráveis, esses todos conhecem. O que desfruto hoje é um sentimento de suficiência. Estar só é o suficiente, permite-me estar comigo mesmo, dispensa todas as coisas, objetos, muletas, fugas, ou qualquer que seja o nome que se queira dar. Essa solidão não oprime e não deprime. Essa solidão permite escolhas, permite a consciência. Ela paira no ar, quase tangível. E é voluntária.
Não deixa de ser estranho que sinta isso somente agora que me desfiz de quase tudo que tinha, e que esteja num lugar ao qual em breve não tornarei. É como se esse espaço vazio fosse condição para permitir sentir o bastante em mim. Começo a achar, contudo, que o espaço vazio que é imprescindível é o interior. Me parece que é ali que se acomoda a vida, com todas as suas nuances, é ali que se abriga tudo aquilo que a vida trás, tanto o que compreendo e aceito quanto aquilo com que luto. É nesse vazio que a vida realmente acontece.
Das outras vezes que senti algo parecido foi com maior brevidade. Não estou certo se tinha a mesma consciência dos movimentos, se tinha o mesmo desapego e se consegui desfrutar tanto assim da liberdade. Daí que percebo que chegar ao essencial é absurdamente simples e, por isso mesmo, demorado. Não fui ensinado a lidar com a simplicidade, não sei se alguém é. As oportunidades já haviam me surgido antes. Não tive a coragem e reconhecê-las. Estava ancorado em antigas escolas, linhagens e escolhas, algumas minhas, outras, de outros.
Este é um momento em que nada tem de ser feito. O mais irônico é que sei que esse próprio sentimento é fugaz, esse equilíbrio também se evanescerá de alguma forma. Não sou um espírito assim tão elevado que consiga perpetuar a consciência que agora tenho. Tê-la alcançado é uma conquista, cultivá-la será uma jornada.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Auto acalanto
Cada um lida com essa cruz a seu modo. O meu é tentar voltar a respirar decentemente. Respirar é automático, e, nesses dias, respirar mal também o é. O que eu faço então é forçar a respiração num ritmo mais profundo e para isso leio em voz alta, melhor dizendo, declamo. Tente declamar sem respirar fundo! Impossível, não é?
A princípio comecei com qualquer texto (e, a propósito, descobri que essa técnica é especialmente boa para entender aqueles textos densos, difíceis de acompanhar numa primeira leitura). Depois fui descobrindo a beleza da poesia e me rendi a ela. Um de meu textos preferidos é a Canção de Mim Mesmo, de Walt Whitman. Veja um fragmento. Vamos lá! Leia em voz alta e cadenciada; delicie-se.
Eu celebro a mim mesmo , e canto a mim mesmo,
E o que eu pensar também vais pensar,
Pois cada átomo que pertence a mim igualmente pertence a ti.
Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio tranquilo observando um talo de relva de verão.
Minha língua, cada átomo do meu sangue, formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo, e seus pais o mesmo,
Eu, agora com trinta e sete anos de idade em perfeito estado de saúde, começo,
Com a esperança de não parar até a morte.
Crenças ficam em suspenso,
Recolhendo-se por enquanto na suficiência de serem o que são, mas nunca esquecidas
Aceito pensar para o bem e para o mal, permito que se fale em qualquer ocasião,
A natureza sem entrave com sua energia original.
Esse texto fala a mim e à toda a humanidade. Não, não me atreverei a diminuí-lo com a pobre interpretação que eu alcançaria. Esse é um daqueles textos que deveriam ser proibidos de interpretar, são textos para ser vividos tão somente.
Ahh, e há também Dante Alighieri, com a Divina Comédia. Nesses dias estava lendo e relendo um trecho e chamou-me a atenção esta parte em que Beatriz explica a Virgílio ( e este, por sua vez, relata a Dante) a razão de seu destemor em sair do céu e ir ao inferno a seu encontro. Não tenha vergonha; declame! Leia várias vezes.
Mas dize-me, por que não te intimida
aqui desceres neste fundo centro,
do amplo lugar que a volta te convida?'
'Desde que queres saber tão adentro',
ela me respondeu, 'vou te dizer
por que não temo chegar aqui dentro:
Temer deve-se a coisa em que o poder
de nos causar o mal se manifesta,
as outras não, das quais não há temer.
Tal fui feita por Deus, sua mercê, que esta
vossa fatal miséria não me afeta,
nem chama deste incêndio me molesta.
Mas há dias em que prefiro os versos pagãos de William Blake. Não que Dante não possa ser lido de forma pagã, creio que isso depende essencialmente da história de vida e de crenças do leitor. Mas vamos adiante. Este é um poema do livro Cantigas da Inocência e da Experiência.
Noite
Descendo o sol no poente,
Cintila a estrela da tarde.
Calam-se as aves nos ninhos,
E eu em busca do meu,
Parece a lua uma flor,
No alto jardim do céu,
Que em silêncio se senta
E para a noite sorri.
Adeus campos, verdes matas,
Onde os rebanhos pastaram;
Pelos campos aprazíveis,
Vão os anjos invisíveis
Encher de graça bendita,
E de alegria infinita,
Cada flor, cada botão,
Cada coração que dorme.
Espreitam em cada ninho,
Onde durma um passarinho;
E vão a todos os nichos,
Sossegar todos os bichos;
Se acaso algum chora
E o sono lhe demora,
Sentam-se ali a seu lado,
Até ficar ensonado.
Muito bem, você que estava lendo esse texto num cyber-cafe e ficou aí declamando as poesias em alto e bom som, já deve estar se sentindo um tanto mais animado! Sentiu a assertividade da vida na potência e coragem da voz? Sentiu que o mundo fica relativo quando tens de acompanhar as rimas e modular o volume? Sentiu o estômago se revolver quando o ar chega até os confins dos pulmões? E sua vizinhança? Talvez até tenha sido saudado pelo pessoal aí ao lado. Não; ninguém entendeu? A rapaziada nem te ouviu de tanto gritar e xingar as mortes sofridas nos games que estavam jogando? Não tem problema não. Eu penso sempre que a poesia é para consumo próprio. Talvez até enterneça quem ouve, mas acalanta mesmo é ao próprio coração que as declama, e suspeito, (não tenho sido acometido por certezas ultimamente) que o insufla do espírito e da sabedoria profunda desses poetas.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
A fé na vida
Todos aqueles que já idealizaram um projeto, que já acalentaram um amor, que já sonharam uma conquista sabem o que é ter fé na vida. E não consigo imaginar quem não tenha passado por isso e então me autorizo a acreditar que escrevo para todos. Tudo o que é construído, desejado, imaginado tem em sua origem essa fé, e carrega também algo assemelhado, mas com uma diferença tão sutil que é quase sempre tomado como igual: a expectativa. Já que me arrogo a dizer isso, devo agora ser claro em dizer as diferenças, as ditas sutilezas. Pois bem, aí vai meu entendimento da coisa toda, e já vou adiantando que não sei conceituar isso tudo, (ou talvez até soubesse, mas quero experimentar caminhos mais leves), sei apenas contextualizar o que quero dizer.
A fé na vida é o riso e a curiosidade da criança, é a ideia primeira, é a respiração livre, é a vontade que surge do nada, é espontânea, é o broto que nasce da semente da flor, mas também da erva-daninha (voltarei a ela mais tarde), é o beijo natural na face do meu irmão (de sangue ou não), é a voz da garganta aberta, é, para finalmente usar a palavra que queima na ponta da minha língua: instintiva.
E a expectativa, o que é? Bom, para ser bem rasteiro e superficial: é a erva-daninha. Sim, pois o conceito de que uma determinada erva é daninha vem da expectativa que ela frustra ao teimar em aparecer numa horta ou canteiro de flores que se queria "limpo". Calma lá, antes que você pense que vou entrar aqui numa cruzada pela vigilância da moral e de seus conceitos vou dizendo que essa nem de longe é minha intenção. Pessoalmente acho que todas as criaturas tem sua função mas esse não é o ponto do meu texto.
Minha comparação com a erva-daninha é para provocar o entendimento que temos sobre as expectativas. Enquanto a fé não é para ser adquirida, compreendida, buscada, na expectativa tudo isso acontece e é necessário. E esse é o ponto nevrálgico da questão toda. Essa fé de que falo não pode (ou não poderia - as religiões não concordam comigo) admitir a existência de um conceito moral sobre si, mas com a expectativa isso é inevitável. Ela pode ser otimista ou pessimista, e então constrói ou destrói, e tanto um quanto outro podem ser bons ou ruins. Percebo que estou montando uma sobreposição de conceitos que estão implícitos nessa última frase. Para planificar digamos que a expectativa é o resultado que esperamos, mas poucas são as vezes em que estamos conscientes de que esperamos algo e de como reagimos à sua consecução ou frustração.
Como dosar o apego que em alguns momentos é indispensável para construir algo e o necessário desapego para não aprisionar a alma depois? Como aceitar que aqueles olhares, as carícias e as promessas de vida a dois agora se transformaram em algo diferente do esperado e que talvez nem mais se consiga conviver? Ou, em tendo de conviver, como lidar com as diferenças e construir algo novo, saudável? Como gozar das conquistas sem temer ser engolido por elas ou perdê-las?
Ando prestando atenção à vida. Há dias em que minha energia abunda e inunda minha existência e meus atos. Saio pelo mundo com vigor e entusiasmo. Cantarolante, cheio de ótimas expectativas cumpro tudo a que me proponho destemido e crente de que a vida é maravilhosa. Há outros em que essas gloriosas expectativas são frustradas de alguma forma e então é necessário parar, desacelerar, rever a vida. Nesses dias o vigor e entusiasmo não são espontâneos, as canções cedem aos murmúrios e se o dia estiver especialmente bonito e ensolarado talvez me sinta ainda pior por não suportar minha miséria frente à beleza do mundo. E então me pergunto: como não ser refém de vontades tão volúveis de mim mesmo? E me recolho, procurando pela sabedoria que abandonei no auge da excitação.
E há, finalmente, alguns dias em que estou consciente. Nesses dias reconheço que preciso aprender a lidar com as expectativas sem ofuscar a fé. Que algo além de minha pouca compreensão da vida move o mundo e que deve ser possível viver sem tantas oscilações. Como fazê-lo? Não sei. Nesses dias é que escrevo. E é só até aqui que a minha rala consciência da vida me trouxe até agora.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Sobre o que é tudo isso então?
E esse foi, tem sido e talvez seja para sempre um grande dilema para a capa do meu diário, para a capa da história da minha vida, talvez para a vida em si. Sobre o que, afinal, é a vida?
É sobre o que abandonamos? Aqueles ranços, aqueles pedaços de lugares, de expectativas, de performances e de histórias vencidas? Oops, cuidado aí. Não vai querer ficar repisando o passado, não é? Pois passou, se foi, caputs, morreu. Ah, mas sobre ele construí aquilo que sou hoje. Mais, sobre esse passado as pessoas me construíram! Isso tem alguma importância, não tem? (Não, leitor. Não estou perguntando a você, estou fazendo um papo de louco, perguntando a mim mesmo. Ah, você quer carona? Tudo bem, mas saiba que às vezes exagero nas curvas.) Voltando. Sim, tem alguma importância. Para pisar em cima e só. Afinal, se o passado não for degrau será bagagem, mala. Atrasa a viagem. Dá calo nas mão, não cabe nos compartimentos que temos para levar a vida. E, pior, muitas vezes nem é bagagem nossa, é da linhagem familiar, da professora, da catequista e por aí vai. O que vai escrito entre as capas do meu diário me ensinou, numa das tantas re-leituras, que tem gente que junta bagagem para que os outros a levem adiante e, ainda por cima, os consegue fazer acreditar piamente que é muito bom carregá-la, numa fila de camelos lotados atravessando o deserto em que a alma se transforma nesses casos.
Ok, isso já me deixa mais ou menos satisfeito com o passado. E então, vamos ver para onde iremos daqui pra frente? Legal, vamos lá! Me diga você aí! Para onde é? Como será? Crocante? Perfumado? O próprio édem? Tenebroso? Uma pasmaceira? Uéé, também não sabe? Tampouco, no meu diário, sabem as páginas amareladas e sujas de grafiti por uma caligrafia feia, muito embora a pergunta tenha se repetido à exaustão. De tão cansado de perguntar a mesma coisa até já reclamei lá que só ficava perguntando as mesmas coisas. Não sei você, leitor, (tá por aí ainda?) mas o meu diário sempre que me acolhia produzia um efeito Monopol (não sabe o que é? - pergunte a sua mãe ou avó, ou vá ao super, acho que ainda existe) nas minhas elocubrações sobre os potenciais do futuro, as expectativas, os cenários, blá, blá, blá. Tudo muito patativa.
Nada, não é mesmo? E tudo isso então para voltar ao título? Sobre o que é tudo isso? Ta aí: nada. Pronto, se tava lendo até agora, acabou de desistir. Eu avisei que é um papo de louco. E quer saber, o papo é meu, tá bom. Não que saber? Tudo bem por mim. Eu tô mesmo numa de ficar olhando as montanhas,os oceanos, as fotos do planeta, e ouvido as férteis imaginações que dizem existir outros sitemas e galáxias que transformariam, comparativamente, a nossa num pozinho daqueles que tem na soleira da porta. E tudo isso independe das minhas fermentações sobre o futuro e passado e das exclamações e interrogações na capa do meu diário. Tô numas de ficar chorando porque não sei bem o que fazer da vida para depois me sentir feliz por poder ouvir Vivaldi com os rompantes das Quatro Estações. Também tô cansado de ficar imaginando um legado que vou deixar. Sim, sim, eu sempre ficava me pavoneando e imaginando hordas de pessoas lendo minhas coisas, admirando meus feitos, venerando minhas idéias. Menos, muito menos. De uns tempos pra cá me dei conta que tenho mesmo é que viver a alegria e miséria da vida. Se alguém no futuro quiser olhar para ela e achar isso importante, problema dele. Não me responsabilizo pelas misérias e alegrias que construir a partir das minhas.
Se tem alguém me seguindo ainda, agora deve tá pensando: Putz, esse cara tá iluminado! Tô nada. NADA, sacou. Por isso dói, é instável, é louco, é belo, é cansativo, é acolhedor, é singelo, às vezes até é tudo.
Se você leu até aqui e entendeu tudo, nunca mais volte. Se voltar vai ter de me explicar o que entendeu. Se entendeu nada, volte: talvez um dia tenha mais disso por aqui.
Pepe
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Móbile do ser
Do pó acumulado
Por eras de civilidade
Assentou-se
Uma armada
Uma armadura
Da vida que restou
Do animal primitivo
Partiu o soluço
O magoado grito
Da dor arfante
Do sopro renascido
O menino chorou e riu
E tornou o homem
Conviva do ser
Pepe
Por eras de civilidade
Assentou-se
Uma armada
Uma armadura
Da vida que restou
Do animal primitivo
Partiu o soluço
O magoado grito
Da dor arfante
Do sopro renascido
O menino chorou e riu
E tornou o homem
Conviva do ser
Pepe
terça-feira, 11 de março de 2008
Mais Walt Whitman
"Acredito em ti, minha alma, o outro que eu sou não deve se degradar diante de ti,
E tu não deves te degradar diante do outro.
Vadia comigo sobre a relva, solta a trava de tua garganta,
Nem palavras, nem música ou rima eu quero, nem costumes ou sermões,
Nem que sejam os melhores,
Gosto apenas da calmaria, do murmúrio de tua voz valvulada."
Trecho de "Canção de mim mesmo", Walt Whitman.
domingo, 9 de março de 2008
Ando ouvido... e me inspirando!
Há músicas, filmes e eventos dos mais diversos que se passam repetidas vezes até que se esteja pronto para de fato percebe-los em toda sua magnitude.
People say I'm lazy dreaming my life away
Fiquem com a letra de:
Watching the wheels
John Lennon
People say I'm crazy doing what I'm doing
Well they give me all kinds of warnings to save me from ruin
When I say that I'm o.k. well they look at me kind of strange
Surely you're not happy now you no longer play the game
People say I'm lazy dreaming my life away
Well they give me all kinds of advice designed to enlighten me
When I tell them that I'm doing fine watching shadows on the wall
Don't you miss the big time boy you're no longer on the ball
I'm just sitting here watching the wheels go round and round
I really love to watch them roll
No longer riding on the merry-go-round
I just had to let it go
Ah, people asks me questions lost in confusion
Well I tell them there's no problem, only solutions
Well they shake their heads and they look at me as if I've lost my mind
I tell them there's no hurry
I'm just sitting here doing time
I'm just sitting here watching the wheels go round and round
I really love to watch them roll
No longer riding on the merry-go-round
I just had to let it go
I just had to let it go
I just had to let it go
Cliquem aqui para assistir no You Tube.
Que tenham boas inspirações!
Pepe
quarta-feira, 5 de março de 2008
Lembranças oportunas - Nuvem Passageira
Por umas dessas coisas inexplicáveis, independentes de nossas vontades e regramentos, lembrei-me desta música que ouvia na infância
Nuvem passageira- Hermes de Aquino
Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai
Não adianta escrever meu nome numa pedra
Pois esta pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar
A lua cheia convida para um longo beijo
Mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito
E a namorada analisada por sobre o divã
Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber de me fazer, ou me matar
Eu vou deixar em dia a vida e a minha energia
Sou um castelo de areia na beira do mar
Veja o vídeo no YouTube.
Nuvem passageira- Hermes de Aquino
Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai
Não adianta escrever meu nome numa pedra
Pois esta pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar
A lua cheia convida para um longo beijo
Mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito
E a namorada analisada por sobre o divã
Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber de me fazer, ou me matar
Eu vou deixar em dia a vida e a minha energia
Sou um castelo de areia na beira do mar
Veja o vídeo no YouTube.
sábado, 1 de março de 2008
Ando lendo...
Ando lendo A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera (Ed. Nova Fronteira-1985) e quero compartilhar este trecho que me pareceu ser valioso. Espero encontrar outros desse calibre até o final do livro.
"Num passado remoto, o homem deve ter ouvido com assombro o som de batidas regulares que vinham do fundo de seu peito, sem conseguir saber o que seria aquilo. Não podia identificar-se com um corpo, essa coisa tão estranha e desconhecida. O corpo era uma gaiola e dentro dela, dissimulada, estava qualquer coisa que olhava, escutava, tinha medo, pensava e espantava-se; essa coisa qualquer, essa coisa que subsistia, deduzido o corpo, era a alma.
Hoje, é claro, o corpo deixou de ser um mistério, sabemos que o que bate no peito é o coração, o nariz nada mais é que a extremidade de um cano que avança para poder levar oxigênio aos pulmões. O rosto nada mais é que o painel onde terminam todos os mecanismos físicos: a digestão, a visão, a audição, a respiração, a reflexão.
Depois que o homem aprendeu a dar nome a todas as partes de seu corpo, esse corpo inquieta menos. Atualmente, cada um de nós sabe que a alma nada mais é que a atividade da matéria cinzenta do cérebro. A dualidade da alma e do corpo estava dissimulada por termos científicos; hoje, isso é um preconceito fora de moda que só nos faz rir.
Mas basta amar loucamente e ouvir o ruído dos intestinos para que a unidade da alma e do corpo, ilusão lírica da era científica, imediatamente se desfaça."
Dá vontade de ler e reler, não é? Se você viu o filme, não deixe de ler o livro. Fácil de encontrar, inclusive em sebos.
Pepe
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